Bienal 2018 - Gabriel Pérez-Barreiro fala sobre arte e cidadania
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Criação do espanhol Antonio Ballester, "Sentido/Comum" traz 4.000 diferentes formas de um cogumelo.
A pluralidade é uma das marcas da arte contemporânea
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Na visão do curador-geral da Bienal de Artes de São Paulo 2018, Gabriel Pérez-Barreiro, ao exaltar a diversidade de pensamentos a partir da fragmentação, a intenção da mostra é dar uma resposta a problemas da contemporaneidade, como a falta de concentração e a intolerância. Para isso, compartilhou com outros seis artistas-curadores as escolhas das obras. Pérez-Barreiro justifica o caminho ao afirmar que não acredita nessa visão que tem prevalecido na sociedade atual, de que uma pessoa seja capaz de resolver tudo sozinha. Antes, defende que a pluralidade é a essência que pode tornar o mundo mais afetivo, visto que cada um terá afinidade com um pensamento criativo diferente.
"A arte não é outra coisa do que encontrar um olhar diferente do seu", conclui.
Ouça também um podcast completo sobre a Bienal 2018, em que, além do curador-geral, há participações de professor, alunos e de Antonio Ballester.
Acompanhe também a
transcrição do áudio, adaptada pelo jornalista Daniel Grecco:
Peças Raras: O quanto a Bienal pode
ser também uma forma de abrir a mente e as visões das pessoas nesse contexto de
eleição polarizada e manifestações de ódio tanto no Brasil quanto no mundo? A
arte pode ajudar a conter esse mau comportamento?
Gabriel Pérez-Barreiro: Olha eu acho
importantíssimo nessa situação que certamente a gente está vivendo no mundo,
não é? Eu moro nos Estados Unidos e a gente está vivendo essa situação hoje. Eu
trabalho muito com a Venezuela, que também é um país que foi destruído por
causa desse ódio, dessa polarização, e estou com muito medo de ver isso agora
acontecer com o Brasil, num processo muito semelhante. Eu acho que neste
instante a possibilidade que a arte oferece é justamente o modelo plural. Acho
que temos que começar a desativar na nossa cultura, na nossa sociedade, a ideia
do patriarcado que tem alguma pessoa que vai explicar o mundo para você. E não
é isso. Vivemos num mundo muito complexo, com olhares bem diferentes, com
subjetividades diferentes. Às vezes a gente tem até uma certa dificuldade de se
comunicar com nós mesmos. De modo que acho que a arte é uma excelente área para
ensaiar isso, para trabalhar isso. A arte não é outra coisa que encontrar o
olhar que é diferente do seu, por definição. Estamos devendo muito esses
espaços na sociedade . Parte disso acho que tem a ver com o crescimento das
redes sociais.
As pessoas estão vivendo numas bolhas onde têm seus preconceitos, seus olhares refletidos e aumentados, multiplicados pelos outros. Então estamos perdendo o sentido do comum, um sentido onde as pessoas partem de diferentes ideologias, diferentes pensamentos para se encontrarem, para pensarem sobre alguma outra coisa.
Acho que esses espaços foram
sistematicamente destruídos na nossa sociedade e hoje existem poucos, e um
espaço como a Bienal que é gratuito e que recebe quase 1 milhão de pessoas -
que estão passando pelo parque do Ibirapuera -, não é um evento só para
especialistas, é um evento para a sociedade. É importantíssimo reforçar essa
ideia de diversidade, de tolerância, de compreensão do olhar do outro. Então eu
vejo essa resposta nessa direção: acho que a Bienal não é para se posicionar de
um lado ou de outro do debate, seja qual for a nossa ideologia específica, mas
acho que ela tem uma função de defender o espaço público de debate. Então
certamente sem saber que íamos chegar nesse extremo que estamos agora, sim foi
uma preocupação minha de pensar a Bienal como um projeto.
O eixo do projeto educativo dessa edição da Bienal é trabalhar
especificamente a questão da atenção, de como utilizamos a atenção, como
podemos nos tornar mais conscientes do uso da nossa própria atenção como uma
ferramenta incrível que todo ser humano tem, ela é inata.
Voltando à crise político-social que estamos vivendo, um dos motivos é que acho que a nossa atenção foi sequestrada pela tecnologia, pelas redes sociais. Hoje em dia todos nós vivemos numa constante distração. O nosso celular, o Instagram são ferramentas para prender nossa atenção, para tirar nossa atenção de determinada coisa. Tem pessoas que hoje têm dificuldade de ler um livro porque ficam olhando o telefone a cada cinco segundos para saber se aconteceu alguma coisa.
Consumimos muito a imagem. De fato as empresas por de trás dessas tecnologias,
o Facebook, Google, - o negócio deles é vender a nossa atenção. Revender
o nosso olhar para a publicidade. Acho que isso tem mudado muito a nossa
sociedade nos últimos anos. A gente somente agora está começando a entender o
efeito social que isso está gerando na nossa sociedade. Então acho que a arte é
um bom lugar para prestar outro tipo de atenção. A gente não está consumindo
imagem, o nosso olhar não está sendo repetido para ninguém. É um ótimo
lugar para ficar 15 minutos diante de uma obra como uma experiência de
autoconhecimento. Quem faz esse tipo de exercício entende o imenso potencial
que essa atenção tem, para se tornar mais tolerante, para não julgar as coisas
tão rápido como fazemos na vida cotidiana. Então, sim, acredito que essa
questão da atenção e a arte é um campo muito importante.
Num lugar como a
Bienal, apesar de ser um prédio grande que pode parecer dispersar essa atenção,
todo projeto educativo tenta fazer o contrário, tenta desacelerar nosso tempo
de percepção. Então, por exemplo, o mediador não tenta mostrar toda a Bienal
numa visita. É proposto que se fique um tempo analisando determinado trabalho,
fica-se um tempo numa área e prestemos atenção no que está acontecendo. E
depois vamos conversar sobre o que a gente sentiu, por que as pessoas sentem
atração por algumas coisas, como mobilizamos o acesso nas nossas relações; e
também é um bom momento para falar do contrário: se a gente sente afeto, por
que sentimos ódio, por que sentimos medo dos outros também? O afeto não é só
positivo, o afeto também pode ser negativo. Então eu gostaria de dizer que
esses assuntos estão claros na Bienal e que qualquer professor que visite pode
falar um pouco sobre isso, sobre a diferença e de como a gente constrói
interpretações a partir da experiência.
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