Transcrição: Pois é, Poesia entrevista Eduardo Lacerda, da Editora Patuá

O podcast Pois É, Poesia: Arte no Plural nasceu há um ano como uma live do canal Peças Raras no Youtube (você pode rever esta estreia aqui). 

Um dos convidados desta edição Nº 0 foi o poeta e editor Eduardo Lacerda. Acompanhe, a seguir, a transcrição abaixo e a participação dele. 


(Vinheta cantada) Pois é, pois é, pois é poesia.

Poesia há. Ou não.

 

Reynaldo Bessa:

Então vamos lá, eu vou chamar o Edu aqui. Mas Eduardo Lacerda é produtor cultural, editor, ex-poeta, editor da Patuá e dono do Bar Livraria Patuscada. E quem não conhece Eduardo Lacerda, da Editora Patuá, né? Muita gente conhece. Já editei um livro, um dos meus livros, Algarobas Urbanas logo no começo da Patuá, enfim, sou muito feliz, satisfeito com essa edição. Até hoje eu vendo o livro e aí até hoje estou muito satisfeito, muito feliz com esse livro. Depois você me explica, esse negócio de ex-poeta, tá? Você explica... tá bom, mas eu vou ler um poema, depois a gente conversa.

 

Eduardo Lacerda:

Tá ótimo.

 

Reynaldo Bessa:

É fácil rir, fácil rolar na areia, fácil menear o rabo para que os outros vejam, fácil sempre esperar o fim do mês, fácil ter dado a vida por engano, escrever como sempre, dia a dia, rompendo o coração, rompendo o véu e não possuir nem mesmo ao fim de tudo, algum futuro e um quiosque de pastel. Esse poema é de Renata Pallottini, a grande poeta Pallottini falecida agora em 2021, aos 90 anos, uma poeta que eu tinha a maior admiração. Tenho, na verdade, porque um poeta não morre, né? Enfim, admiro muito o trabalho dela, mas eu estou lendo esse poema, que é para justamente fazer o contraponto com essa manchete que saiu no Estadão, desconstruindo o mito de que poesia não vende. Fala o seguinte, na manchete, sucessos recentes de Paulo Leminski, Ana Cristina César e Adriana Calcanhotto desmentem o estigma do género, ou seja, diz que poesia vende. Ora, poesia vende sim.

Eduardo, meu querido, o poeta faz aquilo que não vende ou faz aquilo que não tem preço?

 

Eduardo Lacerda:

Reynaldo, a poesia não tem preço, né? Agora, falar que poesia não vende já é mascarar um país que não forma leitores, que não dá oportunidade para as pessoas de terem acesso ao livro. Então é um lugar fácil, é um lugar comum falar ‘a poesia não vende’, mas por que ela não vende? Porque aquilo é inacessível para as pessoas? Não! É porque elas não têm acesso à literatura, à poesia nas escolas, nos bares, nas ruas.

Acho que aí é uma questão social e milito muito nisso, né, de como também é nossa responsabilidade ajudar a formar leitores e ampliar o acesso à poesia. Então, quanto mais livrarias, quanto mais editoras, quanto mais poetas, quanto mais saraus, quanto mais se falar da literatura, dos livros, da poesia, na novela, no cinema, no rádio, na música, mais ela vai vender sim.

E aí vender não está relacionado com o lucro, essa coisa capitalista. Tá relacionado com a pessoa ter acesso. Então não necessariamente você precisa aumentar os lucros das editoras ou dos poetas, dos ganhos - dos poetas, sim, né, acho que seria legal todo mundo viver desse trabalho -, mas as pessoas terem acesso. Isso é importante. Então eu não falo que poesia não vende. Eu acho que poesia é algo que pode ser distribuído, pode chegar às pessoas, às vezes.

 

Reynaldo Bessa:

Maravilha!

 

Eduardo Lacerda:

Respondi?

 

Reynaldo Bessa:

Respondeu. E fiz a pergunta porque eu queria ouvir de você mesmo isso, né? Queria ouvir justamente o que você disse. Você quer ler algum poema ou você não quer ler algum poema seu ou...

 

Eduardo Lacerda:

Eu não sabia que eu que eu teria que ler, então eu não preparei nada para fazer a leitura.

 

Reynaldo Bessa:

Tá, mas espera aí então que eu vou ler alguma coisa aí, e aí depois a gente volta a conversar, tá bom?

 É o seguinte: A Última Ceia.

Muito bom esse poema, cara.

“Há regras à mesa

como em um brinquedo

de quebra-cabeça.

/E eu não entendo

os dispostos à esquerda

dos pais.

Restos do pequeno

Que sentavam ao meio

da mesa (como prato

que se enche

e procura lugar entre

as pessoas)./

Já não me encaixo

depois que aprendi

a olhar de lado

e sair por baixo”

 

Você conhece isso?

 

Eduardo Lacerda:

(ri) Era da época que eu era poeta, foi noutra vida.

 

Reynaldo Bessa:

Eu te conheci poeta, mas você é um grande editor, você sabe disso. Você não, não carece de elogios. O teu trabalho aí, toda essa obra que você faz com Patuá, você sabe que já é uma prova, digamos assim, concreta, do teu trabalho, do teu carinho. Te conheci com o maior carinho pelo texto, pela escrita, enfim. Então, por isso que eu digo, quem não conhece Eduardo Lacerda?

Meu querido, eu já te agradeço, mas se você quiser tecer aí mais algumas considerações, eu sei que o tempo é muito curto, a gente poderia falar a que horas. Mas, diga aí, diga aí, lá o que você quiser...

 

Eduardo Lacerda:

Eu quero agradecer por esse movimento muito bonito, essa homenagem ao Dia da Poesia e trazendo poetas que eu gosto, leio, e é muito bonito ver esse movimento. Então você está de parabéns. E as pessoas que vieram aqui também. Eu acompanhei o Ademir, o Edson Cruz, a Larissa Germano, foi muito legal.

Assisti tudo isso. Estou estou adorando. Obrigado, viu, Reynaldo?

 

Reynaldo Bessa:

E o Eduardo já veio correndo, porque hoje é Dia Mundial da Poesia e ele estava em vários eventos. Ele saiu de um...

 

Eduardo Lacerda:

Fiquei com medo de não conseguir chegar a tempo. Te agradeço a paciência, né?

 

Reynaldo Bessa:

Eu fiquei com medo de você não conseguir chegar aqui, porque você sabe que eu tenho o maior carinho e a sua presença, as suas palavras aqui são muito, muito, muito importantes.

E dá aquela força à live, porque essa é a luta, esse é o movimento. Não só no Dia Mundial da Poesia, mas todos os dias, como eu falei, falam em poesia, falo de poesia todos os dias. Mas hoje a gente vai falar junto aqui com alguns poetas pra brindar.

 

Eduardo Lacerda:

Deixa eu falar um poema antes de sair, dar espaço para os outros autores, eu vou lembrar um. Eu leio sempre o poema, mas ele é longo. Então vou citar um verso: Menor que meu sonho eu não posso ser. E eu acho que os poetas, as poetas, todas essas pessoas que acreditam em mudar o mundo através da poesia não são menores do que os seus sonhos. Os seus sonhos são imensos. Então obrigado mesmo. Parabéns.

 

Reynaldo Bessa:

Eu que agradeço, cara maravilha, obrigado mesmo, viu?

 

Eduardo Lacerda:

Tchau.

 

Reynaldo Bessa:

Querido, tchau, um abraço grande sucesso.

Gente, é muito bom, é muito bom, poder compartilhar. Eu sou suspeito, sou poeta, ensino essa parada de poesia, mas falar de poesia, falarei de poesia todos os dias, toda hora, enfim, eu vivo disso, respiro poesia, não sou poeta nas horas vagas, eu vivo poesia. E é bem isso mesmo, mas tudo o que é bom, né, chega ao fim. Como mensagem final, eu queria, antes de dar a mensagem final, de encerrar as minhas palavras, eu queria checar com a Deborah.

Deborah, quebrando um pouco o protocolo aqui, mais algum comentário contundente aí, alguma coisa que você queira dizer? Logo depois eu encerro. Tem mais algum comentário que você queira levantar aqui, trazer para a gente?

 

Marcelo Abud:

Bessa, temos uma notícia aqui, a Deborah não está conosco nesse momento. Está  chovendo muito em várias regiões de São Paulo e a Deborah está tendo problemas com o acesso, né? Então ela tem caído aqui. Mas temos muitos comentários, eu posso aqui fazer...

 

Reynaldo Bessa:

Por favor. Por favor.

 

Marcelo Abud:

O papel de ler alguns deles, inclusive muitos estão passando na tela durante a transmissão, né, aqui, sem parar os comentários, as pessoas empolgadas... então, deixa eu dar uma passada geral aqui. O Carlos. O Carlos Cantoni, que inclusive é poeta e que acompanha todo esse movimento de poesia, ele diz que um desejo dele é publicar na Patuá, que a Patuá é uma referência. Então o Carlos Cantoni, que está aqui participando conosco.

A Isabel Carvalho, ela diz que concorda com o olhar de que a poesia deve ser consumida. Também, que foi o olhar aí dito, né, na conversa que você teve agora com o editor da Patuá.

É, temos mais... bom, a Maira Garcia disse que ex-poeta é piada pronta pro Edu disfarçar poesia. O André Gabriel diz que é uma ótima noite de poesia o que estamos vivendo.

A Maira Garcia também dá os parabéns a você pela mediação, Bessa. O Carlos cantoni volta aqui para dizer que está gratíssimo por compartilhar esse momento. E aí nós temos muitos comentários. O André Gabriel diz, grande Bessa. Eu queria aproveitar já, a gente vai se encaminhando para o final, mas deixar uma surpresa para você e para todo mundo que ficou até agora conosco, você termina, você encerra, mas se você concordar, a gente roda aqui o clipe de “O Futuro que me Alcance”, que está aí ganhando vários prêmios, se você concordar, a gente termina assim, depois do final, depois da vinheta, depois de tudo.

 

Reynaldo Bessa:

Se o pessoal tiver paciência aí e tal, pode ser, pode ser. Os comentários você citou todos, né? A gente, eu estou eu, eu levantei os comentários aqui porque a gente tem um tempinho aí, tem mais 3 minutos. Então, por isso o interessante é essa interação das pessoas. Saber o que as pessoas estão pensando, podem criticar, podem opinar, podem elogiar, enfim, porque a gente... sempre para, não é, na ideia de fazer melhor, enfim, então é ressaltar esses comentários no finalzinho aqui, quebrando o protocolo, eu encerro as minhas palavras com os versos do T.S. Eliot, né?

Ele fala o seguinte, “a poesia não é um modo de libertar a emoção, mas uma fuga da emoção. Não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade”.

Esta live foi produzida por Deborah Izola e Marcelo Abud (Peças Raras, que é o podcast Peças Raras também que aqui é um podcast. Apresentação minha, Reynaldo Bessa. Então gente, obrigado. Valeu. Viva a poesia brasileira e um viva bem forte a todos os poetas do mundo todo. Está bom? Obrigado.

 

(Música)

Vai vir o dia

Vai vir o dia

Em que tudo o que eu diga seja poesia.

 

(Música: O Futuro que me Alcance)

Não é mais minha casa

Nem é mais meu o tempo

O passado tem mil asas

Vem na valsa, vem no vento

E eu vou nessa dança, amor

E eu vou, vou nessa, vou

Minha mãe dorme em meu peito

Pulsa que nem um quasar

Que eu nem sei direito

Se estou aqui ou se estou lá

E eu vou nessa dança, amor

E eu vou, vou nessa, vou

Vou sozinho, vou no risco

Entre aquilo e isso, vou lá

A cada passo, a cada lance

O futuro que me alcance, sei lá

Vou como o pássara voa

Vou como o barco flutua

Vou na popa

Vou de costas para a proa

Minha mãe dorme em meu peito

Pulsa que nem um quasar

Que eu nem sei direito

Se estou aqui ou se estou lá

E eu vou nessa dança, amor

E eu vou, vou nessa, vou

Vou sozinho, vou no risco

Entre aquilo e isso, vou lá

A cada passo, a cada lance

O futuro que me alcance, sei lá

Vou como o pássaro voa

Vou como o barco flutua

Vou na popa

Vou de costas para a proa

 

(Vinheta cantada) Pois é, pois é, pois é, Poesia. Poesia há. Ou não. 



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