quarta-feira, dezembro 17, 2008

Música para os Olhos

Abro uma exceção em nossas peças raras radiofônicas para alertar sobre uma preciosidade da poesia.

Nesta quinta, dia 18, Reynaldo Bessa lança o livro Outros Barulhos. Acima, o convite com os detalhes.

Ouça aqui “Cartas de Amor”, poema de Carpinejar musicado por Bessa.

Leia a orelha do livro, assinada pelo também recém-descoberto talento da literatura Fabrício Carpinejar.

O músico e compositor Reynaldo Bessa guardou a infância no quarto até onde deu. Agora explodiu pelas janelas e portas.
"Outros barulhos" é um baú que transbordou: quando os mortos e vivos se embaralham na linguagem, lembranças são confundidas com premonições; vozes, com cheiros. Ou ele publicava esse livro ou ficava louco, não tinha escolha.
É uma fartura de vida, um armazém de fiados, armário de brinquedos extintos, que todo leitor vai se exuberar.
É uma obra da saudade. A saudade alegra, inclusive, os dias em que cortamos os dedos.
O livro quer a poesia como iluminação da corda. Faísca da corda de violão. Eu pergunto: quantas forcas há no violão? Quantos homens são desenforcados pela música?
É uma música muda. Uma música que estica a vida que não houve.
Bessa é poeta. Pela intuição maravilhosa. Pelas comparações novas. Pelo tempo de descrever, e, acima de tudo, de se calar na hora certa. Como um menino ingênuo, ele questiona: "como pode alguém com fome/ ter medo de relâmpagos?" Alguém já pensou nisso antes?
Pela verdade apurada, de antever contradições e desarmar ciladas da auto-ajuda.

"Há algo de liso, de falso, de suspeito,
na total aceitação.
uma leve, porém inquietante tensão,
feito a frágil sacola do supermercado que a gente nunca
sabe se vai romper ou se vai agüentar
as compras até chegar em casa."

Sua sensibilidade é espiã. Não suportaria suas dores se não carregasse também a dos outros. Por isso, sofre com o bêbado voltando para casa, como se houvesse um trapézio transparente na rua; os vizinhos rindo e os familiares o segurando com os olhos. A poesia quando narração é imbatível. A poesia como contadora de histórias é imbatível.
Sabemos muito mais da memória de Bessa.

"o silêncio
do meu irmão
doía mais
que as pancadas
do meu pai."

Porque ele nos confidencia sua imaginação.

Fabrício Carpinejar
poeta e jornalista, mestre em
Literatura Brasileira pela UFRGS.