domingo, abril 30, 2017

Lição de democracia no Colégio Santa Cruz


Nunca na história deste blog um textão foi tão necessário. Aceitando ao convite do Professor Alcides Villaça nas redes sociais, li as três cartas atribuídas aos corpos docente e discente do Colégio Santa Cruz. Reproduzo aqui o debate de ideias, ao contrário do que veículos que pendem para um ou outro lado têm feito, ao exporem os conteúdos com os respectivos juízos de valores que possuem. Aprendi, há mais de 20 anos, na graduação, que era assim que chegávamos às nossas próprias opiniões, ou seja, lendo versões que se opõem, mas que procuram trazer argumentos que as justifiquem. Boa leitura!

AULA 1 – CARTA ABERTA DAS PROFESSORAS E DOS PROFESSORES DO COLÉGIO SANTA CRUZ
“Sei bem que a crise que o país enfrenta não é de simples solução, uma vez que tem raízes sócio-político-econômicas (...) Porém não posso deixar de pensar em tantas pessoas, sobretudo nos mais pobres, que muitas vezes se veem completamente abandonados e costumam ser aqueles que pagam o preço mais amargo e dilacerante de algumas soluções fáceis e superficiais para crises que vão muito além da esfera meramente financeira.”
(Papa Francisco, em carta enviada a Michel Temer, no final de 2016)
“Art. 6º da Constituição Federal de 1988 estabeleceu que a Previdência seja um Direito Social dos brasileiros e brasileiras. Não é uma concessão governamental ou um privilégio. Os Direitos Sociais no Brasil foram conquistados com intensa participação democrática; qualquer ameaça a eles merece imediato repúdio.”
(Nota da CNBB sobre a Reforma da Previdência)
"Desde o início, o Colégio sempre manteve uma postura educacional coerente com os princípios humanos e evangélicos, que privilegiam a formação integral da inteligência, do corpo e do coração, uma educação voltada para a liberdade responsável e para o comprometimento social. Essa orientação prevalece no Colégio e na mente dos educadores até os dias atuais, em que pesem todas as transformações ocorridas ao longo desses últimos 64 anos de história.”
(Plano Diretor do Colégio Santa Cruz de 2016, versão impressa e disponível no site do Colégio)

O corpo docente do Colégio Santa Cruz vem publicamente expressar sua posição de repúdio às reformas defendidas pelo Governo. Estamos convictos de que a atropelada e intensa mobilização do Congresso Nacional — com objetivo de modificar radicalmente os parâmetros constitucionais que regem o sistema de Seguridade Social e a Legislação Trabalhista, utilizando manobras de urgência para esquivar-se da necessária e ampla discussão democrática — acarretará severos prejuízos sociais e econômicos à sociedade brasileira.
Trabalhamos em um Colégio com uma história de defesa dos valores humanistas e cristãos, de justiça e solidariedade, desde a sua fundação, e com orgulho de ser um espaço de liberdade de expressão, pluralidade de ideias e convivência democrática. Defendemos a longa tradição de inserção comunitária voltada aos mais pobres e com ela nos identificamos. Temos um compromisso com a Educação, com nossos alunos e com a sociedade. Entendemos, por isso, fazer parte do nosso ofício contribuir para a formação de cidadãos responsáveis pela comunidade a que pertencem. Segundo Padre Charbonneau, pilar das diretrizes educacionais do Colégio, cada membro da comunidade “deve assumi-la, promovê-la, e defendê-la, responsabilizando-se, na medida do possível, pelo bem de todos, isto é, pondo-se a serviço da sociedade toda a que pertence e subordinando o seu bem particular ao bem comum”. Por assumirmos essas premissas como verdadeiras, compreendemos que é nosso dever nos manifestarmos contra o processo de precarização do trabalho e de retirada de direitos duramente conquistados pela sociedade.
Entendemos que as relações de trabalho, construídas historicamente, podem servir a interesses diversos e que sua construção é sempre campo de disputas políticas essenciais para o avanço da democracia em um Estado de direito, em que a lei pode ser recurso de consenso. Henri Dominique Lacordaire, um dos precursores do catolicismo moderno, dizia: “Entre os fortes e fracos, entre ricos e pobres, entre senhor e servo é a liberdade que oprime e a lei que liberta”. No atual contexto, de relação entre desiguais, a flexibilização das leis trabalhistas — divulgada pelo Governo como modernização, que prevê, entre outros aspectos, a livre negociação entre lados desiguais, sem amparos legais que garantam direitos realmente voltados a proteger os trabalhadores — necessariamente acentuará os privilégios e benefícios de um grupo à custa da parte mais vulnerável da população.
Frente a isso, é importante esclarecer que, como educadores, assumimos papel de responsabilidade social para além de nossos interesses pessoais e corporativos. Ainda que tenhamos condições econômicas melhores do que grande parte dos trabalhadores, como educadores, nosso interesse pessoal está sempre vinculado a interesses de ordem coletiva e, portanto, não podemos fechar os olhos diante do que consideramos injustiça social.
As razões para nos opormos às reformas são de diversas ordens (econômica, social, política, humanitária e educacional) e consideram os divergentes diagnósticos e análises dos efeitos que elas trarão. Não estamos sozinhos, grupos e entidades reconhecidos em nosso país também se manifestaram contrariamente a essas medidas. Em nota conjunta, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e a Confecon (Conselho Federal de Economia) posicionaram-se, também, contra a Reforma da Previdência:
"A PEC 287 vai na direção oposta à necessária retomada do crescimento econômico e da geração de empregos, na medida em que agrava a desigualdade social e provoca forte impacto negativo nas economias dos milhares de pequenos municípios do Brasil."
Para nós, professoras e professores do Colégio Santa Cruz, as medidas propostas nos âmbitos do trabalho e da seguridade social irão acentuar sistemas já excludentes. Somente um projeto que torne a previdência social e a legislação trabalhista mais inclusivas e justas, que abrace aqueles que hoje se encontram sem qualquer proteção do Estado, poderá contar com apoio de quem quer diminuir a desigualdade no país.
No que se refere especificamente à Educação, retrocessos que ampliem a vulnerabilidade social e econômica no Brasil e que agravem o quadro de precarização do trabalho são danosos para o espaço escolar. As reformas defendidas pelo Governo, quando clamam à terceirização irrestrita e vislumbram a retirada de direitos sociais, avançam nesse sentido e comprometem tanto a necessária estabilidade do vínculo entre professores, funcionários e comunidade discente, quanto a imprescindível garantia de um limite digno e humano para o nosso exercício junto a crianças, jovens e adultos, no âmbito da Educação que defendemos. Não há escola democrática e inclusiva que prescinda desse vínculo e dessa garantia.
Nós, professoras e professores do Colégio Santa Cruz, acreditamos na formação de cidadãos que se engajem no desenvolvimento mais justo e igualitário da sociedade e não abrimos mão desse princípio que norteia nossa escola, uma organização filantrópica, que tem, acima de todos os outros, um compromisso inegociável com todos os cidadãos. Por conta disso, decidimos por expressiva maioria em assembleia, com a presença de cerca de 70% dos docentes de todos os períodos e segmentos de ensino, amparados na Lei e no espírito democrático, paralisar as atividades docentes no dia 28 de abril de 2017 e resolvemos nos unir ao amplo e cada vez mais expressivo movimento nacional de professores e demais categorias de trabalhadores.

São Paulo, 24 de abril de 2017.

Corpo docente do Colégio Santa Cruz



Aula 2 - Carta (DE UMA PARCELA) dos alunos e alunos do Colégio Santa Cruz

Em primeiro lugar, é necessário dizer que temos um profundo respeito pelo corpo docente do Colégio Santa Cruz, que realiza seu dever de nos educar de forma exemplar, e com o qual possuímos muitas ideias em comum. Reconhecemos também que foram esses professores que nos possibilitaram desenvolver as competências necessárias para entrar no debate político e sempre nos deram o espaço para exercermos nossos questionamentos. Apesar disso, seria impossível não nos posicionarmos frente ao que consideramos uma visão equivocada, com prováveis consequências catastróficas para o País como um todo.
Após ler a Carta Aberta escrita pelos professores referente à decisão de paralisação no dia 28 de abril de 2017, sentimos a necessidade de redigir essa resposta explicitando nossa posição. Reconhecemos o direito à greve e à livre manifestação de ideias e entendemos que a Carta justifica a ação dos professores, porém acreditamos que o posicionamento contra a Reforma da Previdência seja profundamente equivocado. Além disso, a Carta passa ao largo das questões centrais envolvidas, apelando para noções generalistas de “justiça social”. Pauta-se em um maniqueísmo exacerbado e parte, desde a 1ª linha, do pressuposto de que as reformas propostas pelo Governo Federal são ruins para o país e, especialmente, para os mais pobres. Essa forma de pensar apenas simplifica e empobrece o debate.
Com o objetivo de justificar a decisão dos professores, a argumentação esconde-se atrás de uma suposta “proteção de direitos”, defende a manutenção do status quo e falha em criticar aspectos objetivos da proposta de reforma. Acontece que um direito ser garantido por lei não garante o orçamento necessário para cumpri-lo. Sendo assim, a Carta defende que se mantenha o rombo crescente da Previdência. Esse rombo foi, segundo dados do próprio Governo Federal, de cerca de 300 bilhões de reais ano passado (5% do PIB), e tende a crescer conforme a população envelhece. Isso impede tanto a estabilidade fiscal como maiores investimentos em outros setores. Em um país que, falando de Previdência, estão postas duas opções: a Reforma proposta pelo Governo ou o sistema atual, defender a segunda opção é usar o discurso da defesa de direitos para, na realidade, defender privilégios. Dentre estes privilégios, há por exemplo o fato de funcionários públicos se aposentarem fora do RGPS (recebendo o equivalente a seus salários anteriores, ignorando o teto de 5.300 reais que vale para todos os outros trabalhadores). Ademais, o modelo atual permite que os mais ricos se aposentem mais cedo, já que têm muito mais facilidade para contribuir para a Previdência, criando casos absurdos e indefensáveis, como o fato de o presidente Michel Temer ter se aposentado como promotor público aos 55 anos de idade.
Não nos enganemos; ir contra a reforma da Previdência é também defender que um funcionário público continue recebendo em média três vezes mais do que um trabalhador regular (Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados), e que a média de aposentadoria no Judiciário, de 25.700 reais, não seja alterada. Dinheiro esse que poderia ser revertido para outras áreas fundamentais, nas quais o investimento governamental é raquítico, como por exemplo saneamento básico, saúde e educação.
Além disso, o Brasil já gasta uma porcentagem maior do PIB em Previdência do que a média da OCDE, mesmo sendo um país relativamente jovem. Com o envelhecimento do país, que ocorre a passos largos, segundo o IBGE, os improcedentes 13% do PIB gastos pelo Brasil só tendem a aumentar. Não obstante, o número proporcional de pessoas economicamente ativas tende a diminuir. Ou seja, enquanto a expectativa de vida só aumenta e a população em geral só envelhece, parece razoável aos professores que as regras se mantenham as mesmas.
Ao dificultar a aposentadoria por tempo de contribuição, a Reforma Previdenciária contribui para a diminuição da desigualdade no Brasil, visto que, no geral, quem se aposenta antes dos 65 anos são os mais ricos, em decorrência da dificuldade dos mais pobres de serem empregados com carteira assinada de maneira regular. Segundo o DataPrev, o valor médio concedido por tempo de contribuição é de mais de 2 salários mínimos, enquanto o concedido por idade supera por pouco a faixa de 1 salário mínimo.
A posição defendida pelos professores falha em apresentar embasamento técnico e econômico. Defender políticas públicas pautadas em ideais de “justiça” e “defesa dos mais pobres” é meio caminho andado para a irresponsabilidade fiscal. Essa irresponsabilidade fiscal, muito presente nos governos da ex-presidente Dilma, gera inflação, que pune majoritariamente os menos favorecidos.
Em conclusão, parece evidente que, apesar das mudanças propostas apresentarem vários defeitos de origem, forma e conteúdo, as reformas em curso conduzidas pelo atual governo estão em geral no caminho correto de um arcabouço regulatório e legal mais moderno que reduz burocracias, fomenta crescimento e principalmente elimina privilégios construídos ao longo de décadas e que são, além de injustos, completamente insustentáveis do ponto de vista das finanças públicas.



Aula 3 – Carta (DE OUTRA PARCELA) de alunas e alunos do Colégio Santa Cruz:
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” (Paulo Freire)
“Defenderei sua liberdade de ensinar, para manter minha liberdade de aprender” (Aluno do EM, em mensagem anônima)

Em sala de aula, sempre fomos incentivados a pensar, debater, encarar o mundo criticamente e nos posicionar com respeito frente às questões que nos são apresentadas, tanto dentro quanto fora do ambiente escolar.
Nossas professoras e professores são, sem dúvida alguma, essenciais para a criação e manutenção do ambiente de aprendizado democrático e plural com que sempre pudemos contar para desenvolver nosso pensamento crítico. É notável, em sala de aula, o esforço pelo respeito às diversas opiniões, manifestadas pelos diversos alunos e professores.
Infelizmente, em um momento de profundo acirramento político como o que vivemos hoje, expressar opiniões tem se tornado algo cada vez mais difícil. A intensa polarização enfrentada pela sociedade empobrece o debate e dificulta a livre manifestação de opiniões, promovendo um ambiente no qual impera o desrespeito e a intolerância, deixando o debate de ideias em segundo plano.
Queremos lutar para que isso não ocorra dentro de nossa escola, de forma a zelar pelo ambiente democrático construído por nós e pelos professores, no dia-a-dia da sala de aula.
Acreditamos, portanto, que não devemos isentar-nos da discussão acerca da paralisação dos professores, pois desejamos, acima de qualquer outra coisa, manter possível o debate e a respeitosa manifestação ideológica no Colégio, a fim de evitar que temas caros a nós tornem-se tabus ou mesmo raízes de conflitos de ordem pessoal.
Assim, frente aos acontecimentos recentes, nós, parte do grupo de alunos do Colégio Santa Cruz, gostaríamos de expressar, por meio desta, nosso total apoio à paralisação dos professores na greve geral do dia 28/4.
Não apenas pois reconhecemos e defendemos o constitucional direito à greve, mas também por reconhecermos que as reformas na previdência e trabalhista representam um ataque a parcelas vulneráveis da população, ao pautarem-se na retirada e redução de direitos conquistados pelos trabalhadores ao longo de anos de intensa e admirável luta política.
Defendemos que nossas professoras e professores possam se manifestar e exercer livremente a docência, sem que se crie um clima de tensão e, como consequência, se prejudique nosso aprendizado.
É motivo de muito orgulho para nós observar o engajamento de nossos professores em uma luta que diz respeito não somente a eles, mas a todos os trabalhadores e trabalhadoras que serão amplamente prejudicados com as reformas da previdência e trabalhista.
Gostaríamos de acrescentar que essa carta não reflete o posicionamento de todos os alunos e alunas da escola, mas de um grupo que decidiu se mobilizar para expressar seu apoio aos professores do Colégio Santa Cruz, que democraticamente decidiram aderir à paralisação por motivos já esclarecidos pelos mesmos na “CARTA ABERTA DAS PROFESSORA E DOS PROFESSORES DO COLÉGIO SANTA CRUZ”, publicada no dia 25/04/2017.

Julia Mesquita, André Nunes, Sofia Kassab, Tomás Marcondes, Ana Laura Appy, Rafael Semer, Zoé Reis, Lilla Lescher, Luiz Nigro, Luiza Chucre, Carolina Friedheim, Isabella Cornacchioni, Emília Galvão, Babette Fernandes, Juliana Cornacchioni, Iara Veiga, Raquel Guimarães, Júlia Leite, Gabriela Motidome, Antonio Ikeda, Lis Loureiro, Mariah Salles, Alice Rosenthal, Luísa Takeuchi, Clara Angeletti, Yuri Liegel, Flora Santos, Miguel Worcman, Luiza Freire, Raquel Guimarães, Andre Silvestri, Érico Dias, Isabella Fraia, Teresa Magalhães, Ricardo Daher, Rafael Neves , Maria Rezende, Beatriz Maradei, Beatriz Sales Oliveira, Emanuela Gebara, Antônio Fonseca, Letícia Fagundes, Maria Vitória, Júlia Leite, Julia Podkolinski, Maria Kinker, Mariana Diel, Gabriela Monteiro, Tomer Raca Silberberg


(Vale notar que não pretendemos, aqui, discutir nas minúcias o porquê de sermos contrários à reforma da previdência: queremos, mais especificamente, demonstrar apoio à decisão tomada por nossas professoras e professores.)

Belchior foi buscar o novo hoje, em outro plano



Ouça uma edição especial do podcast Rádiofobia Classics, conduzido por Leo Lopes, postado no final do ano de 2016, quando Belchior completava 70 anos.




(se o player não estiver visível, clique aqui para ter acesso ao áudio)

sexta-feira, abril 28, 2017

Devastador - uma música de vasta dor





Há 10 anos, escrevi um poema e o meu amigo Reynaldo Bessa o musicou. Tivemos o privilégio de contar com a participação de Rita Benneditto (à época, Rita Ribeiro).
A primeira parte da música fala da dor gerada pelos mais diversos tipos de repressão. A segunda, da dor e delícia de se entregar à arte.
Sofre, briga, trabalha, trabalhador
Luta, vence, batalha, batalhador
Abafa, apaga, engana, enganador
Tritura, corta, simula, simulador
Explora, bate, dita, ditador
Atira, mata, tortura, torturador
Sofre, luta, abafa, explora, atira, padece
Briga, vence, apaga, corta, mira, amadurece
Trabalha, batalha, engana, dita, desaparece
Briga, vence, apaga, corta, mira, amadurece
Conta, trova, viola, violador
Fala, encanta, ama, amador
Toca, arrebata, canta, cantador
Prosa, versa, declama, declamador
Amplia, entrega, narra, narrador
Goza, madruga, cria, criador
Conta, fala, toca, goza, prosa, amplia
Trova, encanta, versa, entrega, concilia
Canta, ama, narra, doma, pega e cria
Trova, encanta, versa, entrega, concilia


Luzes, câmera, transformAÇÃO = Videocamp

A plataforma Videocamp, do Instituto Alana e da Maria Farinha Filmes, busca engajamento a partir de sessões coletivas e debates. Ouça a entrevista com Carolina Pasquali em http://neteducacao.com.br/multimidia/audios/plataforma-online-e-gratuita-estimula-assistir-filmes-em-conjunto



Reúna mais de 5 pessoas e escolha um lugar onde seja possível exibir um filme. Pronto! Você já tem tudo o que precisa para gerar transformação. É só escolher o filme (na imagem, alguns dos que estão disponíveis) que quer assistir e o Videocamp vai enviar esse título para esse grupo.
“O Videocamp nasceu da nossa profunda crença de que assistir a um filme junto é bastante diferente de assistir a um filme sozinho. Esse tipo de filme que traz uma discussão, uma sensibilização, uma chamada à ação é mais eficaz e transformador quando a gente está em grupo.”
(Carolina Pasquali – diretora de comunicação do Instituto Alana)
O nome Videocamp faz menção ao audiovisual e a estar junto”. Camp vem de acampamento. A ideia é gerar mobilização e permitir que a experiência seja compartilhada entre o grupo que se reúne para ver um filme.

Acompanhe outros áudios da série NET Educação em www.neteducacao.com.br/multimidia#audios

terça-feira, abril 11, 2017

Rouxinol de Rinaré lança cordel sobre 70 anos de Asa-Branca na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará


O poeta cordelista Antonio Carlos da Silva, conhecido popularmente como Rouxinol do Rinaré, lança, na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, um cordel para comemorar os 70 anos da primeira gravação em disco do baião Asa-Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Importante nome desse gênero literário, Rinaré figura entre os membros da ABC (Academia Brasileira de Cordel) e da Sociarte (Sociedade dos Amigos de Rodolpho Theóphilo). O Encontro literário ocorre de 14 a 23 de abril de 2017 no Centro de Eventos do Ceará. O cordelista estará todos os dias na Bienal, expondo e participando de mesas de discussão. 

Para celebrar o lançamento da publicação,  gravamos uma entrevista sobre Asa-Branca, com o pesquisador e presidente do Instituto Memória Brasil (IMB), Assis Ângelo, para o NET Educação (ouça a matéria neste link), que também escreveu o texto abaixo, com exclusividade para o Peças Raras.



Assis Ângelo e Rouxinol do Rinaré, na Livraria Cortez (crédito: divulgação)


DUAS OU TRÊS COISINHAS QUE SEI A RESPEITO DE ASA-BRANCA
Por: Assis Ângelo

Pelo lagrimar dos olhos
A gente vê quem tem amor...

Não chore não, viu?
Nem vá chorar, viu?
Que a vida é essa...
Seu amor torna a vortá

Asa-branca pequenina
Já voou de meu sertão
Por farta d’água morreu meu gado
Morreu de sede o alazão.

A asa-branca bateu asa
Foi embora pra o sertão
A saída da asa-branca
Entristeceu meu coração

A asa-branca foi embora
Alguma coisa há de levar
Leva uma rede e uma toalha
E uma morena pra namorar

A asa-branca morreu hoje
Hoje mesmo se enterrou
Na cova da asa-branca
Nasceu um pé de fulô.

Da região da Serra da Borborema, PB, são os versos em quadra que abrem este texto.
Foram colhidos pelo catedrático paraibano e doutor em música pela Universidade Do Rio de Janeiro João Baptista Siqueira, postos no livro Os cariris do Nordeste. As três últimas estrofes são originárias do Ceará e registradas em disco por Cego Oliveira. Tanto num caso como no outro, o que se põe à bala é a riqueza do nosso folclore, em cuja fonte grandes artistas da nossa música bebem ou beberam, como Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Aliás foi na versão de ambos que a toada Asa-Branca se imortalizou, ultrapassando fronteiras:

Quando oiei a terra ardendo
Quá fogueria de São João
Eu perguntei a Deus do Céu, ai
Pruque tamanha judiação

Qui nbraseiro, que fornaia
Nem um pé de plantação
Por farta d’água, perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa-branca
Bateu asas do sertão
Entonce eu disse, adeus Rosinha
Guada contigo meu coração

Hoje longe muitas léguas
Numa triste solidão
Espero a chuva caí de novo
Pra mim vortá pro meu sertão

Quando o verde dos teus óios
Se espraiá na plantação
Eu te asseguro num chore não, viu?
Qui eu vortarei, viu, meu coração.

A pomba migratória asa-branca, da família columbidae, como a rolinha e a juriti, também identificável como pomba-trocaz, pomba-trocal e pombão, é encontrável nos cerrados, caatingas e florestas do Nordeste e outros estados do País. No Rio Grande do Sul, é chamada de pomba-carijó. Além do Brasil, acha-se também na Argentina, Bolívia e Paraguai. É ícone, símbolo da paz e da resistência do ser vivo contra as mazelas da vida. Representa a imorredoura esperança humana.

Ao pressentir a chegada da seca e as consequências daí advindas, essa pomba, que mede cerca de 34 cm e se destaca das demais pela mancha branca que carrega sob as asas, troca seu habitat natural por paragens até desconhecidas, mas que lhe possibilitem a sobrevivência, da mesma maneira que o homem do sertão e – de outras regiões - costuma fazer quando fareja a chegada de dificuldades provocadas pelas intempéries ambientais, políticas, endêmicas, ou econômicas. A migração nordestina para São Paulo, por exemplo, dá-se intensamente a partir das grandes secas ocorridas entre as décadas de 1930 e 1950 e crises políticas que atingiram o País, de Norte a Sul.

A asa-branca, como as andorinhas, garças, viuvinhas, tuiuiús, maçaricos, sebitos , marrecas-de-asas-azuis, entre outras espécies, simboliza também, e de forma profunda, a saudade, a solidão, o exílio. Não foi à toa que Caetano Veloso gravou em Londres a toada de Gonzaga e Teixeira. Antes o mesmo foi feito por Geraldo Vandré, perseguido e exilado no seu próprio país. Por esse caminho a asa-branca pode ser adotada como instrumento de exercício de cidadania, em qualquer lugar ou tempo.

A população dos grandes centros urbanos é caracterizada por sua flutuação. São Paulo, quinta maior cidade do mundo, e a principal do Brasil e do hemisfério Sul, começou a receber brasileiros de outros Estados na virada do século 19 para o século 20. Em 1901, São Paulo, segundo levantamento feito em 1959, contava com 1.434 migrantes e 70.348 imigrantes. Vinte e dois anos depois, a presença de nordestinos, mineiros e fluminenses chegava a muitos milhares, multiplicando-se depois aos milhões pelo incentivo de governos como o de Armando Salles, que dependia da mão-de-obra de brasileiros fora de São Paulo e também de estrangeiros, para o crescimento ordenado do Estado, desde o interior pela agricultura e pela construção civil, na capital.
Hoje, calcula-se que haja em São Paulo cerca de seis milhões de nordestinos e descendentes.

Há dez anos reuni dezenas de artistas da música popular num grande palco especialmente armado na Praça da Sé, marco Zero da cidade de São Paulo. O objetivo era discutir a qualidade,  má, da nossa música ouvida no rádio e  comemorar os 60 anos da primeira gravação da toada-baião Asa-Branca, de inspiração popular desenvolvida pelo cantor e sanfoneiro Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Isso ocorreu no dia 3 de março de 2007. E foi uma festa, com a praça cheia de gente cantando e dançando ao som da Banda de Pífanos de Caruaru, Anastácia, repentistas etc.
Na ocasião lançamos ao público o folheto sob o mote decassílabo Foi Voando nas Asas da Asa Branca que Gonzaga Escreveu a sua História, criado pelo cordelista baiano Marco Haurélio.

Agora, dez anos depois, o craque do cordelismo cearense Rouxinol do Rinaré  escreve o folheto que já nasce clássico Asa-Branca: Setenta Anos de Sucesso!
Asa Branca é um tema popular conhecido desde o século 19 na Paraíba e em Pernambuco e Ceará. Na cantiga original, a melodia enfeita pois, novos versos; esses, identificados por todo mundo, a partir da gravação de Luiz Gonzaga em 1947.
A nova letra para Asa Branca assinada por Teixeira, que todo mundo conhece de cor e salteado, começa assim:

Quando oiei a terra ardendo
Quá fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu,...

Essa cantiga  já recebeu mais de quinhentas gravações diferentes em inglês e coreano, inclusive. Mais até do que o choro Carinhoso de Pixinguinha e João de Barro.
Asa-Branca: Setenta Anos de Sucesso! é todo desenvolvido em décimas, em versos de sete sílabas, seguindo o esquema de rimas ABBAACCDDC. Neste folheto o público tem a oportunidade de aplaudir, não só os versos do genial Rinaré, mas também as ilustrações do Mestre pernambucano Jô Oliveira.

Neste ano de 2017 em que se comemoram os setenta anos de gravação de Asa-Branca por Luiz Gonzaga, presente melhor para todos não poderia haver, não é mesmo?
Asa-branca é um símbolo de resistência, da vida e da paz. E é muito sabida, pois fareja de longe, com antecedência, a chegada das brabas secas que infernizam o povo desde o século 18. Muita gente morreu em consequência das sempre longas estiagens que têm torturado o povo mais simples instalado nos grotões do Brasil.
A última seca registrada a olhos nus é a que a ora se arrasta desde 2011.
E a Asa-branca?
Desde 2011 que a Asa-Branca não bate asa no sertão.
E viva Rinaré, Jô, Luiz e Humberto!

Assis Ângelo é presidente do Instituto Memória Brasil – IMB




Leia a seguir o início do cordel assinado por Rouxinol de Rinaré, que está sendo lançado na Bienal Internacional do Livro do Ceará: 

Asa-Branca: 70 anos de sucesso!
Rouxinol do Rinaré

Para falar de Luiz
Gonzaga do Nascimento
Peço a Deus, neste momento,
Que me sopre a diretriz
E uma inspiração feliz
Dos seus profundos arcanos
Para que os gonzaguianos
Batam palmas, toquem sino,
Pra Asa-branca, nosso hino,
Que já faz setenta anos!

Ao som que Luiz arranca
Da sanfona choradeira
O grande Humberto Teixeira
Cria a canção Asa-branca
Por isso ninguém desbanca
Esses gênios soberanos
Ausentes entre os humanos,
Presentes junto ao Divino
E Asa-branca, nosso hino,
Completou setenta anos!




quinta-feira, abril 06, 2017

Todas as Manhãs do Mundo, de Lawrence Wahba, desperta amor pela natureza e pelos bichos em crianças de todas as idades

Entrou hoje em cartaz o longa-metragem "Todas as manhãs do mundo", do premiado documentarista da natureza Lawrence Wahba. Veja a convocação que ele faz para você e sua família correrem ao cinema. 




Semana que vem, você confere uma entrevista completa com Lawrence Wahba, sobre o filme, no canal Multimídia do NET Educação

segunda-feira, abril 03, 2017

Idade Mídia: Excesso de luz cega tanto quanto a falta dela, por Alexandre Sayad




Em 2012, o jornalista e educador Alexandre Sayad (foto) publicou o livro de crônicas “Idade Mídia – A comunicação reinventada na escola”. A obra trazia as experiências realizadas numa escola paulista, com projetos  de comunicação. O conteúdo ganha agora a versão em e-book, que será lançado este ano. Ao revelar a metodologia do trabalho, o autor espera que a obra sirva de inspiração para outras escolas.

Idade Mídia foi idealizado por Sayad, juntamente com o jornalista Gilberto Dimenstein. Em cada projeto de Comunicação, descrito e acompanhado dos depoimentos dos participantes, são os próprios alunos que apontaram o tema a ser discutido e valorizado. A partir daí construíram projetos de comunicação utilizando várias mídias.

No áudio, o entrevistado aponta as transformações que as tecnologias digitais proporcionam: além de ampliar o acesso à informação, elas são um meio de criação e expressão para os alunos. Sayad ressalta que o uso da Comunicação para educar não é exclusividade de escolas com recursos e investimentos em alta tecnologia. Um exemplo citado por ele é o jornal mural. “Se você faz um jornal mural divertido, com notícias que interessam, feitas pelos jovens para eles mesmos lerem no intervalo, você tem um começo tão simples e eficiente quanto uma rádio”, conclui.


Indagado sobre o papel da escola, num tempo em que o mundo está inundado com tanta informação, ele aponta a função de curadoria da informação. “A escola é fundamental para ajudar alunos a construir filtros, fazer escolhas, analisar fontes,  para que a informação essencial possa ganhar sentido e assim ser tranformada em conhecimento”, nesta era que chamamos de Idade Mídia.

Há 44 anos, é hora de acordar São Paulo e dar o Pulo do Gato


sábado, abril 01, 2017

Rá-Tim-Bum, o Castelo, agora no Memorial da América Latina


Bum, Bum, Bum - Castelo Rá-Tim-Buuum!!! 

Para quem cresceu vendo o Castelo na TV, uma das frustrações era descobrir que, na verdade, aquela construção e fachada não passavam de uma maquete. 


Mas, depois do enorme sucesso em 2014 no MIS e logo após no Rio de Janeiro, a mostra que reproduz os cenários do Castelo Rá-Tim-Bum está de volta a São Paulo. Agora as visitações acontecem na área externa do Memorial da América Latina, na Barra Funda, região central. A novidade é que, pela primeira vez, o castelo é construído de verdade e ocupa uma área de 700 m².




Os cenários reproduzem com o que assistíamos no seriado (como se nota nas fotos em que meu filho visitou a exposição no MIS. Do lado de fora há uma torre com 15 metros de altura, bandeira tremulando, janelas, colunas, catavento. A cenografia  de cada ambiente proporciona experiências em que todos os visitantes se sentirão parte do Castelo. 

A mostra fica no espaço Multiuso do Memorial e as visitações são de terça a domingo, das 9h às 22h. Os ingressos podem ser comprados na bilheteria do Memorial, que funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h, e aos sábados e domingos, das 10h às 20h ou também pela internet (saiba mais aqui).




Quando o Castelo passou pelo Museu da Imagem e do Som, gravei uma entrevista com Marcelo Tas, o "Tele Kid" do seriado da TV. Na conversa ele fala sobre a relação entre educação e a telinha, destacando o Castelo como um projeto que melhor representou a sintonia entre conteúdo pedagógico e criação de audiovisual. Você pode ouvir o bate-papo com Marcelo Tas ao NET Educação neste link: http://www.neteducacao.com.br/multimidia/audios/marcelo-tas-o-ludico-e-o-educativo-juntos-em-seus-trabalhos-na-tv 


Instalação sobre o Tele Kid, na exposição Castelo Rá-Tim-Bum do MIS, em São Paulo (Crédito: Marcelo Abud)


Fundação Memorial da América Latina 
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 - Barra Funda - São Paulo - SP
tel.: 11-3823-4600

Ouça Mais:
- Toda a série de podcasts do NET Educação está disponível em www.neteducacao.com.br/multimidia#audios