terça-feira, março 28, 2017

Jonas daqui e Salvador dali: entre telas e lonas

Salvador Dali - Santa Creus Festival in Figueras - the Circus - 1921 (extraído do blog Arteeblog)

Em palestra que assisti semana passada na Escola Castanheiras, com o filósofo e professor Clóvis de Barros Filho (veja a cobertura aqui ou baixe o áudio neste link), ouvi essa linda parábola: "O pequeno Salvador é uma criança que está no primeiro ano do Ensino Fundamental. Enquanto a professora ensina a fazer contas, Salvador desenha a professora. Ele desenha como ninguém. No intervalo, as crianças jogam bola e Salvador desenha o jogo. No final de semana, Salvador desenha os parentes almoçando. Salvador desenha o tempo todo. Salvador parece ter natureza de desenhista. Salvador é incrível.

Salvador desenha melhor do que qualquer outra criança daquela idade. Salvador poderá viver em terreno fértil num lugar cheio de lápis e papel, colegas desenhistas, professores de desenho, técnicas novas de desenho, e assim Salvador poderá dia a dia desenhar cada vez melhor, indo atrás da perfeição. A busca da excelência diariamente é condição de uma vida colorida, desafiadora e feliz. A busca da excelência, de tirar de si mesmo o supra-sumo da própria essência. E assim, desenhando, Salvador usou a vida para virar Salvador Dali, desenhista excelente".

Salvador também poderia ter sido plantado em lugar inadequado. Assim como aconteceu com o menino Jonas. Aos 13 anos de idade, convicto de que o circo era o que o encantava, tendo gerações de artistas na família, Jonas é censurado pela professora. Ela afirma categoricamente que Jonas é um caso perdido. Só pensa no circo, faz malabarismos para não ficar na sala de aula e – segundo ela – não percebe que escola não é lugar para brincadeira. Se escola não é lugar para brincadeira, se brincadeira não pode ensinar e Jonas tem que recolher a lona de seus sonhos, escola é lugar de gente triste. No sertão da Bahia, não há salvador para Jonas. Lá até as crianças da idade dele precisam trabalhar e estudar o tempo todo. Não existe lugar para brincadeira. A vida é dura, seca. Um pouco à distância, quem busca fazer este papel de salvador é o tio do menino, dono de um circo que está em outra cidade. Mas a mãe é implacável ao não permitir ao filho que tenha os sonhos e a magia do circo presentes em sua trajetória, apesar dela própria ter crescido no circo e feliz.

O circo da vida é duro com Jonas. Mas o exemplo da própria diretora desse docudrama (um filme que parece ficção e conta fatos reais) pode servir para que o menino tenha a esperança de que, ao crescer mais um pouco, reencontre a infância e viva o circo. A excelência terá sido reencontrada e Jonas terá chance de ser exuberante e feliz novamente.   

O filme “Jonas e o circo sem lona” merece nossa audiência. É uma reflexão importante sobre o rumo prático em que a vida de muitos de nós segue. Mas corra! É um documentário premiado em muitos festivais internacionais. É um documentário brasileiro. Um docudrama. Quase sem tela. 

Precisamos de mais lonas e mais telas daqui e Dali!  

2 comentários:

José Rodrigues Neto disse...

Professor, segui a sua dica dada em aula e assisti o filme.
Que pedrada, hein?
Fã de documentários, fique extasiado com o olhar e fotografia dessa obra.
São poucos os diretores que conseguem, de forma excelsa, mostrar realidades lúgubres.
Se não estou enganado, o Metrópolis falou sobre esse documentário e o Jorge Forbe (psicanalista do ´´Terra Dois´´), em uma palestra com Pondé, mencionou também.
Infelizmente, documentários assim alimentam as insônias da TV Cultura e plateias da Galeria Olido, e não a população que segue a horda do plim-plim.
Agora, falando em rádio, você conhece o Claudio Cunha, vulgo ´´Cuca´´?
É meu amigo e, nas horas vagas, baterista, fotógrafo, torcedor do São Paulo e gente boa.
Findo por aqui, agradeço pela dica e parabenizo pelo blog que será acompanhado de perto.
Um abraço.

obs: Ah!, sou aquele aluno cabeludo e barbudo que falou de Almir Sater, Wandi Doratiotto, ´´velha a fiar´´, Guilherme Arantes, Sereias de água doce, Abumjamra et caterva, tranquilo?

Marcelo Abud disse...

Oi, José. Que recado sensacional!
Fico feliz que tenha ido à sessão do filme.
Suas observações são precisas. Faltam telas para obras sensíveis e que geram reflexão.
Agradeço por ter escrito e compartilhado sua visão. Estamos em sintonia por aqui também. Afinal, você é uma peça rara, meu caro. A participação na aula foi bem bacana.

Abraço.