terça-feira, abril 11, 2017

Rouxinol de Rinaré lança cordel sobre 70 anos de Asa-Branca na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará


O poeta cordelista Antonio Carlos da Silva, conhecido popularmente como Rouxinol do Rinaré, lança, na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, um cordel para comemorar os 70 anos da primeira gravação em disco do baião Asa-Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Importante nome desse gênero literário, Rinaré figura entre os membros da ABC (Academia Brasileira de Cordel) e da Sociarte (Sociedade dos Amigos de Rodolpho Theóphilo). O Encontro literário ocorre de 14 a 23 de abril de 2017 no Centro de Eventos do Ceará. O cordelista estará todos os dias na Bienal, expondo e participando de mesas de discussão. 

Para celebrar o lançamento da publicação,  gravamos uma entrevista sobre Asa-Branca, com o pesquisador e presidente do Instituto Memória Brasil (IMB), Assis Ângelo, para o NET Educação (ouça a matéria neste link), que também escreveu o texto abaixo, com exclusividade para o Peças Raras.



Assis Ângelo e Rouxinol do Rinaré, na Livraria Cortez (crédito: divulgação)


DUAS OU TRÊS COISINHAS QUE SEI A RESPEITO DE ASA-BRANCA
Por: Assis Ângelo

Pelo lagrimar dos olhos
A gente vê quem tem amor...

Não chore não, viu?
Nem vá chorar, viu?
Que a vida é essa...
Seu amor torna a vortá

Asa-branca pequenina
Já voou de meu sertão
Por farta d’água morreu meu gado
Morreu de sede o alazão.

A asa-branca bateu asa
Foi embora pra o sertão
A saída da asa-branca
Entristeceu meu coração

A asa-branca foi embora
Alguma coisa há de levar
Leva uma rede e uma toalha
E uma morena pra namorar

A asa-branca morreu hoje
Hoje mesmo se enterrou
Na cova da asa-branca
Nasceu um pé de fulô.

Da região da Serra da Borborema, PB, são os versos em quadra que abrem este texto.
Foram colhidos pelo catedrático paraibano e doutor em música pela Universidade Do Rio de Janeiro João Baptista Siqueira, postos no livro Os cariris do Nordeste. As três últimas estrofes são originárias do Ceará e registradas em disco por Cego Oliveira. Tanto num caso como no outro, o que se põe à bala é a riqueza do nosso folclore, em cuja fonte grandes artistas da nossa música bebem ou beberam, como Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Aliás foi na versão de ambos que a toada Asa-Branca se imortalizou, ultrapassando fronteiras:

Quando oiei a terra ardendo
Quá fogueria de São João
Eu perguntei a Deus do Céu, ai
Pruque tamanha judiação

Qui nbraseiro, que fornaia
Nem um pé de plantação
Por farta d’água, perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa-branca
Bateu asas do sertão
Entonce eu disse, adeus Rosinha
Guada contigo meu coração

Hoje longe muitas léguas
Numa triste solidão
Espero a chuva caí de novo
Pra mim vortá pro meu sertão

Quando o verde dos teus óios
Se espraiá na plantação
Eu te asseguro num chore não, viu?
Qui eu vortarei, viu, meu coração.

A pomba migratória asa-branca, da família columbidae, como a rolinha e a juriti, também identificável como pomba-trocaz, pomba-trocal e pombão, é encontrável nos cerrados, caatingas e florestas do Nordeste e outros estados do País. No Rio Grande do Sul, é chamada de pomba-carijó. Além do Brasil, acha-se também na Argentina, Bolívia e Paraguai. É ícone, símbolo da paz e da resistência do ser vivo contra as mazelas da vida. Representa a imorredoura esperança humana.

Ao pressentir a chegada da seca e as consequências daí advindas, essa pomba, que mede cerca de 34 cm e se destaca das demais pela mancha branca que carrega sob as asas, troca seu habitat natural por paragens até desconhecidas, mas que lhe possibilitem a sobrevivência, da mesma maneira que o homem do sertão e – de outras regiões - costuma fazer quando fareja a chegada de dificuldades provocadas pelas intempéries ambientais, políticas, endêmicas, ou econômicas. A migração nordestina para São Paulo, por exemplo, dá-se intensamente a partir das grandes secas ocorridas entre as décadas de 1930 e 1950 e crises políticas que atingiram o País, de Norte a Sul.

A asa-branca, como as andorinhas, garças, viuvinhas, tuiuiús, maçaricos, sebitos , marrecas-de-asas-azuis, entre outras espécies, simboliza também, e de forma profunda, a saudade, a solidão, o exílio. Não foi à toa que Caetano Veloso gravou em Londres a toada de Gonzaga e Teixeira. Antes o mesmo foi feito por Geraldo Vandré, perseguido e exilado no seu próprio país. Por esse caminho a asa-branca pode ser adotada como instrumento de exercício de cidadania, em qualquer lugar ou tempo.

A população dos grandes centros urbanos é caracterizada por sua flutuação. São Paulo, quinta maior cidade do mundo, e a principal do Brasil e do hemisfério Sul, começou a receber brasileiros de outros Estados na virada do século 19 para o século 20. Em 1901, São Paulo, segundo levantamento feito em 1959, contava com 1.434 migrantes e 70.348 imigrantes. Vinte e dois anos depois, a presença de nordestinos, mineiros e fluminenses chegava a muitos milhares, multiplicando-se depois aos milhões pelo incentivo de governos como o de Armando Salles, que dependia da mão-de-obra de brasileiros fora de São Paulo e também de estrangeiros, para o crescimento ordenado do Estado, desde o interior pela agricultura e pela construção civil, na capital.
Hoje, calcula-se que haja em São Paulo cerca de seis milhões de nordestinos e descendentes.

Há dez anos reuni dezenas de artistas da música popular num grande palco especialmente armado na Praça da Sé, marco Zero da cidade de São Paulo. O objetivo era discutir a qualidade,  má, da nossa música ouvida no rádio e  comemorar os 60 anos da primeira gravação da toada-baião Asa-Branca, de inspiração popular desenvolvida pelo cantor e sanfoneiro Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Isso ocorreu no dia 3 de março de 2007. E foi uma festa, com a praça cheia de gente cantando e dançando ao som da Banda de Pífanos de Caruaru, Anastácia, repentistas etc.
Na ocasião lançamos ao público o folheto sob o mote decassílabo Foi Voando nas Asas da Asa Branca que Gonzaga Escreveu a sua História, criado pelo cordelista baiano Marco Haurélio.

Agora, dez anos depois, o craque do cordelismo cearense Rouxinol do Rinaré  escreve o folheto que já nasce clássico Asa-Branca: Setenta Anos de Sucesso!
Asa Branca é um tema popular conhecido desde o século 19 na Paraíba e em Pernambuco e Ceará. Na cantiga original, a melodia enfeita pois, novos versos; esses, identificados por todo mundo, a partir da gravação de Luiz Gonzaga em 1947.
A nova letra para Asa Branca assinada por Teixeira, que todo mundo conhece de cor e salteado, começa assim:

Quando oiei a terra ardendo
Quá fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu,...

Essa cantiga  já recebeu mais de quinhentas gravações diferentes em inglês e coreano, inclusive. Mais até do que o choro Carinhoso de Pixinguinha e João de Barro.
Asa-Branca: Setenta Anos de Sucesso! é todo desenvolvido em décimas, em versos de sete sílabas, seguindo o esquema de rimas ABBAACCDDC. Neste folheto o público tem a oportunidade de aplaudir, não só os versos do genial Rinaré, mas também as ilustrações do Mestre pernambucano Jô Oliveira.

Neste ano de 2017 em que se comemoram os setenta anos de gravação de Asa-Branca por Luiz Gonzaga, presente melhor para todos não poderia haver, não é mesmo?
Asa-branca é um símbolo de resistência, da vida e da paz. E é muito sabida, pois fareja de longe, com antecedência, a chegada das brabas secas que infernizam o povo desde o século 18. Muita gente morreu em consequência das sempre longas estiagens que têm torturado o povo mais simples instalado nos grotões do Brasil.
A última seca registrada a olhos nus é a que a ora se arrasta desde 2011.
E a Asa-branca?
Desde 2011 que a Asa-Branca não bate asa no sertão.
E viva Rinaré, Jô, Luiz e Humberto!

Assis Ângelo é presidente do Instituto Memória Brasil – IMB




Leia a seguir o início do cordel assinado por Rouxinol de Rinaré, que está sendo lançado na Bienal Internacional do Livro do Ceará: 

Asa-Branca: 70 anos de sucesso!
Rouxinol do Rinaré

Para falar de Luiz
Gonzaga do Nascimento
Peço a Deus, neste momento,
Que me sopre a diretriz
E uma inspiração feliz
Dos seus profundos arcanos
Para que os gonzaguianos
Batam palmas, toquem sino,
Pra Asa-branca, nosso hino,
Que já faz setenta anos!

Ao som que Luiz arranca
Da sanfona choradeira
O grande Humberto Teixeira
Cria a canção Asa-branca
Por isso ninguém desbanca
Esses gênios soberanos
Ausentes entre os humanos,
Presentes junto ao Divino
E Asa-branca, nosso hino,
Completou setenta anos!




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